O sentido do desapego na viagem e na vida

lagoonthai

A verdade ou sentido das coisas está exatamente naquilo que você acredita ser real ou faz sentido pra você. Pode parecer meio complicado, ou uma completa viagem da minha mente. A realidade que enxergo é muitas vezes um exagero para outras pessoas, e as vezes uma inspiração. Vender as coisas, largar emprego e viajar pelo mundo tem um som de liberdade, e é o que a maioria das pessoas responde quando questionados sobre o que é liberdade, ou como gostariam de estar vivendo nesse momento. Alguns detestam o que fazem, outros gostam, mas ainda assim pensam em outro estilo de vida. O maior obstáculo na nossa vida é conseguir acreditar que tudo o que temos hoje, é nada, que não temos nada. Ou seja, amanhã pode não existir mais. Mas ficamos presos naquilo, presos em nossos empregos, em nossas casas, em nossas rotinas durante anos, e por todo esse tempo pensando em mudar de vida.
Para mim não é diferente, as desculpas que me prendem são as mesmas de todas as pessoas. Mas já foi pior, e hoje em dia dou menos importância pra certas coisas.

Não é necessariamente em casa que encontramos nosso verdadeiro eu. A mobília insiste que não podemos mudar porque ela não muda; o ambiente doméstico nos mantém amarrados à pessoa que somos na vida comum, mas que talvez não sejamos essencialmente. Viagens são parteiras de pensamentos. Há uma relação quase mágica entre o que está diante de nossos olhos e os pensamentos que podemos ter.

Alain de Botton, em A Arte de Viajar

Me perguntam bastante como é depois de sair em um ano sabático, conhecer lugares e pessoas tão diferentes, voltar a rotina antiga. E a resposta é: extremamente difícil! Odeio ter que admitir isso, mas para mim é muito difícil psicologicamente aceitar a mesma vida de antes. Sério!

Todos ouvem e vêem escrito a palavra desapego por diversos lugares. Mas o desapego não se trata apenas de coisas materiais. Trata-se também dos lugares, das pessoas, da rotina, do emprego e de todo o contexto da sua vida. É… bem por aí. Por isso tantas pessoas sonham em passar meses ou anos viajando pelo mundo, mas estatisticamente, poucos fazem. Ou por causa do emprego, ou por causa da família, ou por causa da casa. Até quando sentimos a dor por alguém que gostamos após sua morte, é o apego, pois queremos que essa pessoa esteja do nosso lado sempre. E nada dura para sempre.
Somos apegados a tudo, e a parte material é a mais fácil de se livrar.

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Televisão pra que mesmo?

Quem não gosta de conforto, luxo e gadgets tecnológicos?! Eu gosto, pra caramba! Uma TV grande na sala, uma casa estilosa e confortável. Sim! Também gostaria de tudo isso. Mas não serei infeliz se não tiver, ou se possuir e um dia perder.
Com apenas duas bicicletas doadas por amigos, morando num quarto e cozinha (e uma barata e outra como companhia), trabalhando de jardineiro e vendendo máquinas de massagem, eu me sentia muito feliz.

Quando se está viajando por muitos lugares, vocês não tem casa fixa, sua casa será onde vocês estiverem. Então coisas materiais, só se você quiser ficar pagando excesso de bagagem e carregar malas durante a subida de uma montanha!

Você não faz idéia de como é bom não ter nada! De poder ir de um lugar pra outro sem ter o que o prenda.
Um dia enquanto estávamos no Hawaii, pensamos em ir para Tailândia ficar uns meses. Uma semana depois estávamos embarcando para Bangkok, e com último destino: Japão.
Aquela sensação de ter que se preocupar apenas com o que tem pra hoje, ou no máximo para amanhã. De não ter que trabalhar 300 horas no mês para pagar o carro do ano,  a parcela do novo aparelho de celular ou a conta da tv a cabo que você nem assiste.

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É lá fora que a vida acontece

Mas aí, você conseguiu desapegar da sua vida rotineira do socialmente aceitável. Foi viajar pelo mundo por um tempão e depois voltou para seu lugar na sociedade. Conseguiu novamente um emprego, tem uma residência fixa, e agora?

O que ninguém conta é que quando você “larga” uma vida e começa uma nova, você pode ficar preso também na nova vida. E aí entra o apego novamente. A mente volta ao passado tantas vezes, mas não de uma maneira legal, mas sim com uma certa melancolia. Aquela vontade de estar lá outra vez! E novamente você tem de aprender o que é o desapego.  E por isso, pra mim é difícil voltar a rotina anterior, porque depois de uma experiência sensacional dessas, minha mente não consegue desapegar desse estilo de vida, dessa vontade de viajar, e de estar em lugares que tanto me fazem bem e trazem boa recordações.
Mas estou no caminho, aprendendo muito a cada dia, canelando nas idéias, canelando pelo mundo e dando  minhas caneladas também, porque se fosse perfeito não teria graça.

O desapego é viver o presente, todos os dias de cada vez, esteja onde estiver.

A verdadeira viagem de descoberta não consiste em procurar novas pasisagens, mas em ter novos olhos

Marcel Proust

A liberdade que procura não está na viagem.
Assunto complicado esse.